quarta-feira, 12 de agosto de 2009

OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO.

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Ele que erguia casa
onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
ele subia com as casas
que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
de sua grande missão:
não sabia, por exemplo,
que a casa de um homem é um templo,
um templo sem religião.
Como tampouco sabia
que a casa que ele fazia,
sendo a sua liberdade,era a sua escravidão.


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De fato, como podia
um operário em construção
compreender como um tijolo
valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
com pá, cimento e esquadria.
Quanto ao pão ele comia.
Mas fosse comer tijolo...

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E assim o operário ia,
com suor e com cimento,
erguendo uma casa aqui,
adiante um apartamento;
além uma igreja, à frente
um quartel e uma prisão:
prisão de que sofreria
não fosse eventualmente
um operário em construção.



Mas ele desconhecia
esse fato extraordinário:
que o operário faz a coisa
e a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia,
à mesa, ao cortar o pão,
o operário foi tomado
de uma súbita emoção
ao constatar assombrado
que tudo naquela mesa
- garrafa, prato, facão –
era ele quem os fazia!
Ele, um humilde operário,
um operário em construção.

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Olhou em torno: gamela,
banco, enxerga, caldeirão,
vidro, parede, janela,
casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
era ele quem o fazia!
Ele um humilde operário
um operário que sabiaexercer a profissão.


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Ah! homens de pensamento,
não sabereis nunca o quanto
aquele humilde operário
soube naquele momento!
Naquela casa vazia
que ele mesmo levantara,
um mundo novo nascia
de sequer suspeitava.
O operário emocionadao
olhou sua própria mão
sua rude mão de operário,
de operário em construção.
E olhando bem para ela
teve um segundo a impressão
de que não havia no mundo
coisa que fosse mais bela.





Foi dentro da compreensão
desse instante solitário
que, tal sua construção,
cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo,
em largo e no coração.
E como tudo que cresce,
ele não cresceu em vão.
Pois além do que sabia
- exercer a profissão –
o operário adquiriu
uma nova dimensão:
a dimensão da poesia.




E um fato novo se viu
que a todos admirava:
o que o operário dizia
outro operário escutava.
E foi assim que o operário
do edifício em construção
que sempre dizia sim
começou a dizer NÃO!
E aprendeu a notar coisas
a que não dava atenção:
notou que sua marmita
era o prato do patrão,
que seu macacão de zuarte
era o terno do patrão,
que o casebre onde morava
era a mansão do patrão,
que seus pés andarilhos
eram as rodas do patrão,
que a dureza do seu dia
era a noite do patrão,
que sua imensa fadiga
era amiga do patrão.



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E o operário disse: NÃO!
E o operário fez-se forte
na sua resolução.


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Como era de esperar
as bocas da delação
começaram a dizer coisas
aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
nenhuma preocupação.
- “Convençam-no do contrário” –
disse ele sobre o operário.
E ao dizer isso, sorria
.


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Dia seguinte, o operário
ao sair da construção,
viu-se súbito cercado
dos homens da delação.
E sofreu, por destinado,
sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido,
teve seu braço quebrado,
mas quando foi perguntado
o operário disse: NÃO!



Em vão sofrera o operário
sua primeira agressão.
Muitas outras se seguiram,
muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
ao edifício em construção,
seu trabalho prosseguia
e todo seu sofrimento
misturava-se ao cimento
da construção que crescia.




Sentindo que a violência
não dobraria o operário,
um dia tentou o, patrão
dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
ao alto da construção
e num momento de tempo
mostrou-lhe toda a região.
E apontando-a ao operário
fez-lhe esta declaração:
-“Dar-te-ei todo esse poder
e a sua satisfação
porque a mim me foi entregue
e dou-o a quem bem quiser.
Dou tempo de lazer,
dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
será teu se me adorares.
E, ainda mais, se abandonares
o que te faz dizer não.”




Disse e fitou o operário
que olhava e refletia.
Mas o que via o operário
o patrão nunca veria.
O operário via as casas
e dentro das estruturas
via coisas, objetos,
produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia o lucro do patrão.
E em cada coisa que via
misteriosamente havia
a marca de sua mão.
E o operário disse: NÃO!


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-“Loucura!”- gritou o patrão.
“Não vês o que te dou eu?”
-“Mentira!”- disse o operário.
“Não podes dar-me o que é meu.”


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E um grande silêncio fez-se
dentro do seu coração.
Um silêncio de martírios
um silêncio de prisão
um silêncio povoado
de pedidos de perdão
um silêncio apavorado
como o medo em solidão
um silêncio de torturas
e gritos de maldição
um silêncio de fraturas
a se arrastarem no chão.





E o operário ouviu a voz
de todos os seus irmãos.
Os meus irmãos que morreram
por outros que viverão.
Uma esperança sincera
cresceu no seu coração
e dentro da tarde mansa
agigantou-se a razão
de um homem pobre e esquecido.
Razão porém que fizera
em operário construído
o operário em construção.


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VINÍCIUS DE MORAES. _______




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Um comentário:

  1. Este poema é formidável! É Vinícius de Moraes e não há muito mais a dizer... Isto já basta. Só resta listar mais e mais elogios, não concordam?

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